Nós dois

A vida inteira acreditei que era a cara metade dele e ele minha alma gêmea. Desde a primeira vez que “ botei” os olhos no rapaz, não tive a menor dúvida, era ele sim meu príncipe encantado.Uns chamam isso de amor a primeira vista. Como ele era meu vizinho e morava um andar acima do meu, resolvi chamá-lo de meu céu. À partir daí  passei a viver com a cabeça nas nuvens, literalmente no andar superior. Flutuando.

O tempo foi passando e fomos nos descobrindo. Éramos sim o inverso um do outro. Ele gosta de sal, eu de doce. Ele é mais tímido, eu extrovertida. Ele adora números, eu palavras. O tempo foi passando e lá se vai mais de 30 anos.

Quando casamos, a escolha da cama já indicava nossas diferenças, eu queria uma cama de ferro e ele, de  madeira. Tiveram que desenhar uma cama especial confeccionada em madeira com acabamentos em ferro. Ninho este que nos acolhe há 26 anos.

Certa vez nossa decoradora marcou uma reunião para falarmos sobre a reforma do nosso banheiro, como ele chegou antes foi interrogado primeiro e acreditem, todas as respostas dele foram diferentes das minhas. Parece que eu fiz questão de colocar- NDA( nenhuma das respostas anteriores) em tudo! A princípio fiquei com vergonha, era como se nos conhecêssemos muito pouco, ou quase nada. Fiquei imaginado a cena da gente participado daqueles programas de auditório em que o apresentador faz perguntas pros casais separadamente, ia ser um fiasco…

Recentemente passando férias com uns amigos eles nos davam gongo o tempo todo a cada vez que destoávamos. Ele dizia que gostava de lima e eu achava que era de melancia. Eu falava A e ele falava B.

Relembrando todas essas cenas fiquei questionando o que andaria acontecendo conosco. Será que estaríamos desafinando? Por onde andaria nosso amor?

Fui criada prá ser certinha e poucas vezes na minha vida transgredi, mas há uns anos atrás num átimo de suprema transgressão fiz  bronzeamento. Artificial, diga-se de passagem. Ao chegar em casa, morenaça, crente que estava abafando, fui recebida com uma cara de espanto e com a seguinte frase de desaponto _ “ Eu não esperava isso de você”? Minha pequena transgressão já ia ficando grandinha quando eu também me surpreendi respondendo – Muito menos eu! Realmente era uma atitude que não era minha. Mas era nova! E o novo sempre assusta.

Outra vez chegando em casa de uma pequena viagem, a casa vazia, um calor imenso, abri a geladeira, peguei uma cerveja dessas pequenas e eu que não bebo, sorvi-a com prazer. Depois fiquei olhando praquela garrafa, quase me censurando, juro que pensei até em esconder o franco vazio, afinal era a prova do crime. Contra quem eu não sei. Mas por essa eu também não esperava, afinal eu detesto cerveja. Acho que andei copiando atitudes masculinas.

Lendo as páginas amarelas de uma revista semanal descobri aliviada e com alegria que na verdade esse negócio de cara metade não existe e que o molho do relacionamento está exatamente nas diferenças, na mudança, é ela que nos move. Afinal somos humanos, seres inacabados, eternamente em construção e cheios de imperfeições.

Ele não é desses que manda flores em datas previstas. No início era estranho, pois eu criava expectativas e me frustrava, com o tempo fui percebendo que era o jeito dele amar e que não adiantava esperar que ele me desse parabéns no dia internacional da mulher… Em contrapartida já fez coisas lindas, como um cartaz que guardo no cofre, uma jóia. A cena era de uma mulher  com os pesinhos dentro de uma bacia de água quente, fumegando. Era eu chegando cansada de uma das inúmeras viagens… Fui aprendendo que esperar pelas atitudes inesperadas é que era que o mais gostoso.

Mas gostoso mesmo foi uma deliciosa surpresa….Num dia qualquer, sabendo da minha paixão por bombons de cereja, comprou na Kopenhagen uma caixa linda, em forma de coração e a colocou bem no fundo da minha gaveta de calçinhas. Passou um dia, dois, treis e nada deu agradecer. Daí ele não resistiu e me perguntou – Amor, você troca de calçinha todos os dias? No que eu respondi  prontamente– Claro que sim! É que tenho mania de usar sempre as mesmas que gosto mais e elas ficam ali á primeira mão, abria então a gaveta só um pouquinho sem saber que lá no fundo estava depositada minha dignidade de trocar calçinhas todos os dias e batendo forte, muito forte, docemente, o meu coração!

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