Setembro deveria ser decretado férias coletivas dos garis. Os ipês mancham as ruas de amarelo e forram o chão feito tapete vivo. Dói quando vejo varrerem flores, é uma dor diferente, sem um arquivo de memória de dor parecida para ser comparada, mas sei que é dor. Certamente não menor que as das folhas em movimento de vôo e queda.

Meu marido outro dia sumiu. Apareceu apenas no final da manhã com o rosto iluminado. Havia tirado aquele dia para fotografar ipês. Perceber todas essas delicadezas de Deus é conectar-se com o que o universo tem de mais sagrado, aquilo que costumo chamar de as preciosas coisas banais.

Tenho uma amiga que conta que seu prazer maior é dar água pra beija-flor. Ela liga a mangueira pra molhar as plantas e vez por outra um beija-flor vai de encontro ao esguicho com seu longo bico. Deve ser benção uma função dessas – garçonete de beija-flor.Tenho outra amiga que borda. Bordar parece função antiga, dessas que não se fazem mais mudinhas. Fico imaginando o prazer dela vendo brotar de seus paninhos flores, folhas e pássaros. Primeiro as asinhas, o biquinho e depois um passarinho inteiro.

Meu pai é alfaiate, risca o pano todo feito um arquiteto e depois a calça sai andando pela cidade, vai a festas, trabalha, namora.

Também é coisa que me agrada muito dar vida a alguma peçinha que fica anos empoeirada nas gavetas à espera de minhas criações. É como se pudesse desperta-las de um longo tempo de espera e fazê-las passear pela rua com as mulheres, como as calças de meu pai.

Raquel adora cozinhar, a delicadeza que coloca em cada detalhe faz parte de um ritual temperado de amor. Ela me faz sentir que comida pode ter sentimento.

O maior presente que já ganhei na vida foi uma abóbora gigante. Achei uma lindurice sem fim ganhar uma abóbora de presente. A pessoa que me deu só poderia ser uma pessoa maiúscula, tamanha simplicidade. Andou léguas a pé carregando a maior abóbora que tinha dado na roça.

Paulo viajou e fez pra mim um caderno de viagem, colou nas páginas de uma revista todas as doces lembranças e as boas recordações. Tive a sensação de ter viajado com ele. A última vez que me senti assim, tão acariciada, eu ainda tinha mãe. Imagine ganhar um bolo de presente que a própria pessoa fez e como se não bastasse ainda vir embrulhadinho num pano de prato com uma frase linda bordada sobre a família. Essa amiga tem o dom de ser sofisticadamente simples.

Dia dos namorados deste ano, ganhamos de uma vizinha uma foto que ela tirou da nossa casa ao amanhecer. No cartão ela dizia que era nosso ninho de amor visto da janela dela. Nunca vi nada mais simples e mais rico, guardo-o como uma jóia. Os tesouros que ela me dá são sempre assim: um bouquê de mini rosas do jardim para ser colocado na jarrinha de Nossa Senhora, cestos com jambos da fazenda… São o que chamo de presentes significativos, estes presentes com alma.

Sei só que Deus vive a nos presentear. Se tivesse mais espaço nesta folha poderia ficar aqui desfiando um rosário das delicadezas d’Ele.

Os amigos, então, nem se fala, sempre preciosos, sempre “presentes” cada um a seu modo. Sartre não estava 100 % certo quando disse que o inferno são os outros. Amigos merecem um céu a parte. E, quando piscamos os olhos, taí o fim de ano, de novo. Dizem que é a época do ano de maior índice pluviométrico. A época que mais chove e que a gente mais chora. Balanços de vida, listas de promessas e desejos. Tenho mania de faxinar nesta época do ano. Seleciono coisas, dou outras, na tentativa de carregar uma mala menos pesada vida afora. Faz tempo abandonei o natal de tomada, aquele de luzinhas que piscam. Tenho feito o gênero natal natural. Meus filhos, quando pequenos, ficavam decepcionados com minhas árvores de design. Quanto mais eu me esmerava, menos eles gostavam. Eu via na carinha deles: sonhavam com a árvore artificial, com direito a enfeites importados e pisca- pisca musical. Espero que me perdoem e entendam que minha opção havia sido pelo brilho nos olhos e pela luz interior.

Aos amigos perfeitos, e outros mais que perfeitos ainda, dê presentes significativos. Os ipês não mais florescem nesta época do ano, mas é possível permitir o coração “amarelar” e perceber os fios de ouro com que Deus borda nossas vidas.