Comer não era preciso, a alma se alimentava do olhar. Sob um céu de parreiras, abrigadas naquele teto verde, matizado de roxo, amigas de longas datas amadureciam saudades. Um restaurante onde o dono serve o que é feito na casa: massa vira hóstia, e comer, ritual sagrado. Comidas se tornam imperecíveis para os que ali vão buscando consolo no céu. Há os solitários, sentam no bar, comem e se vão, mas há os que ficam e falam de  sonhos.

Ainda há poesia na terceira maior cidade do mundo. São Paulo me surpreende com um restaurante com jardim vertical e outro com jardim suspenso, no Paraíso. Neste bairro, Pasquale  nos aguarda com uvas solidárias no teto. Basta comprar um cacho, colocar um laço de fita afetivamente simbólico, marcando a compra e as uvas se transformam em ajuda a instituições. “Sou fraca diante da beleza”, é da Cecília esta bela frase. Difícil hoje o que ainda nos causa encantamento, por isso tem que ser louvado. Louvado Pasquale! Louvada Cecília!

Entre anti-pastos, queijos especiais e berinjelas, falar era servido à esmo. Essa taça vai ficar melhor em sua casa. Olha o texto que ele me mandou… Como a Niki está linda ! Depois que come, ele sempre diz “Tô com o satisfeito cheio”. Uma sobremesa e cinco colheres. Ele vai se dar de presente a tão sonhada exposição de fotografias. Me manda umas receitas fáceis de fazer. Queria conhecer sua mãe! A mão dela é imensa, desproporcional, parece não combinar com bordar. Está acampando em Boipeba. A conta por favor. Cristiana também é blogueira , por isso quis te dar ”Para Francisco”. A exposição é do Bob Wilson. Ainda te vejo amanhã!

Os olhos começam a despedir do dia, vão ficando molinhos, declaram sono.

Abraços mudos, intensos, fazem e se desfazem. É hora de ir embora. O ano apenas começa.  A noite, quase finda.

Eu te deixo no hotel dessa vez.

Alberta Hunter ainda me espera acordada, na vitrine do hall. Do long play ela me olha inteira. Depois é  dormir pela metade, passar o filme da noite no travesseiro, ter saudades antecipadas, imaginar parreiras no teto, contar cachos de uvas feito carneirinhos, e deixar que a beleza do encontro me enfraqueça.