Gato e Rato

Infância no quintal é outro departamento. Não me lembro de ter colocado os pés no chão quando criança. Galho de árvore era avião, trem, automóvel… tudo era motivo pra viajar, “balangar” de galho em galho feito macaco.

Fico feliz em ter proporcionado aos meus filhos uma infância com quintal. Experimentar sensações que só se aprende no mato e que menino de sinteco custa a entender. A folha secando, a benção da chuva caindo, lavando tudo, o cheiro de mato molhado…. Mas mesmo assim casa de cidade é diferente de casa do interior. O que lá é comum, quase permitido, aqui vira bicho de sete cabeças. Moro perto de uma montanha e temos vários bichos no quintal. Semana passada dei de cara com um supergambá no meu banheiro, foi um baita susto. Pra mim e pra ele que se assustou com o berro que eu dei. E olha que nosso banheiro é no segundo andar da casa. Aprendi que gambá escala.

Algumas espécies de bichos, temos pouco. A primeira vez que o Juliano viu um calango deu um fora, saiu com essa: Olha um sapo de rabo! É que ele não tinha esse bicho na memória do HD dele…..

Ninho de pássaros temos vários, acompanhamos desde a dança de acasalamento, a confecção do ninho galho por galho até o nascimento dos filhotes. Curiosos vamos vendo as penugens crescendo e depois o dia do primeiro vôo.

Tem também os bichos indesejáveis, que eu morro de medo, como cobras e morcegos voadores. Estes parecem farejar meu medo e, é só desligar a luz pra ver um filme, mesmo sem ser de terror, que estes cismam em fazer rasantes pela sala. Meu marido diz que os deixo loucos, com os radares desafinados, com meus gritos histéricos.

Certa vez deu aqui em casa um surto de camundongos, estes, difíceis de dizimar. Quanto mais ratoeiras  e remédios em tabletes azuis comprávamos, mais eles brotavam, como uma erva daninha. O quintal cheio de plantas parecia ser o esconderijo predileto.Cheguei a oferecer dinheiro por exemplar caçado e nada… Dia de churrasco então era uma festa. Pros  ratinhos e pros convidados, pois pra mim era uma agonia sem fim, ficar esperando que algum deles aparecesse e estragasse tudo, parece que sentiam o cheiro da carne e começavam um desfile despistado e silencioso atrás do muro da churrasqueira…. Cansada de lutar, disse um dia ao Vim, nosso fiel escudeiro e jardinheiro, que tratasse de por um fim naquilo, que não ficava bem nem pra ele, cuja área externa era de sua responsabilidade, nem pra mim como dona da casa.

Foi com um esforço imenso que demos cabo desta peste. No próximo churrasco que fizemos depois desta caça aos ratos, eu era só alegria, a festa já ia tarde e nossa missão estava cumprida, nenhum camundongo tinha sido convidado. Vim, como um verdadeiro Sr. Gatão, muito amigo e servil, estava sempre por perto, recolhendo o que sujo estivesse, dando-nos  sempre o maior apoio. Fiscalizando tudo. Foi aí que se encostou numa das pilastras da churrasqueira reconhecendo o excelente trabalho feito, e, não querendo se “gambá”… disse de alto e bom tom pra todo mundo escutar  A senhora reparou dona Mary que hoje não apareceu nenhum ratinho???!!!

Ah! Vim, a vontade que tive foi  de te esganar, uma vontade tão imensa quanto a saudade que temos de você hoje.

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