Nunca diga nunca

Um casal amigo, na faixa dos sessenta e tantos, apaixonados por cachorros, casa com quintal povoado de plantas exuberantes e jabuticabeira centenária, mudou radicalmente de vida e de opinião. No momento em que pensar no futuro fez-se necessário, dispensaram fiel escudeira de 18 anos, não sem antes arrumar colocação pra mesma. Doaram cachorros, peixes e por último, plantas. Venderam casa, compraram apartamento, desses que, segundo eles, você tranca e sai pro mundo, sem ter que se preocupar em aguar flores e dar comida a animais.

Como uma pessoa que até ontem era fanática por cachorros, de repente passa a não mais querê-los?! Antigamente, chamar alguém de vira folha, era crime, expressão muito usada quando o assunto era mudar de time de futebol, mudar de lado. Mas foi o que pensei deles, tinham virado folha, virado uma página da vida.

Se você, caro leitor, é novo, não desista desta crônica. Este papo te interessa sim! É que, quando se é novo, futuro é coisa tãoooooo distante que achamos que nunca chegará. Se você tem 17 e te apresentam uma pessoa de 27, de cara, você acha este cara velho. Mas com meus 56, se conto que uma amiga morreu e me perguntam se era velha, respondo depois de pensar um pouco com meus botões… nem tanto!

Me vi obrigada a pensar no que faria quando chegar a minha vez. Só que nunca imaginei me aposentar, ficar em casa, com dia, mês e ano à frente, todinho pra gastar em nada… ou seria em tudo?! Sempre me imaginei velhinha, trabalhando de bengala, enfiando contas nos colares sem nem saber mais o que seria agulha ou buraco de conta, mas firme lá, com fiéis escudeiras que fizessem tudo, mas que eu pelo menos fingisse supervisionar e, principalmente, entender. Se em tão pouco tempo tudo mudou tanto, imagine daqui 15 anos. Nem sei se saberei conversar com pessoas “modernas”.

Meu filho, designer gráfico, postou recentemente no Face um comentário cheio de gírias e jargões, que me assustou. Dizia assim: “Galera devia começar a fazer VTs de 5″ pra quebrar a perna do “skip this ad” do youtube”. Sem ter a menor vergonha postei que não havia entendido nada e ele, com vergonha, me mandou uma mensagem inbox traduzindo didaticamente. Sou da época em que DJ ainda era chamado de disc jockey e a maior linguagem cifrada que conhecia era a do pê. Dá pra perceber que mesmo depois da tradução, ainda fiquei com dificuldade de entendimento. E assim vamos vivendo, mudando e procurando se adaptar ao novo. Fico imaginando daqui a algum tempo, netos e netas lendo os blogs e fan pages das avós, já que fazer diário não é mais tão comum, e só lá descobrirão que vovó era rave.

Quando perguntei  pros meus amigos, porque estavam doando até as plantas, me responderam:” À partir de hoje só vamos querer em nossas vidas flores de plástico”.

Você que ainda (se for novo) está lendo esta crônica, pode pensar que mudar tanto assim é absurdo. Mas esta licença poética de ser o que bem entender, só se aprende quando se é “mais ou menos” velho, ou velho… nem tanto.

Apesar de odiar flor artificial, aprendi com esta atitude de meus amigos sessentões, que o melhor  da vida é nunca dizer nunca. Flor artificial, NUNCA esteve nos meus planos, mas, amanhã é outro dia!

 

Nós dois

A vida inteira acreditei que era a cara metade dele e ele minha alma gêmea. Desde a primeira vez que “ botei” os olhos no rapaz, não tive a menor dúvida, era ele sim meu príncipe encantado.Uns chamam isso de amor a primeira vista. Como ele era meu vizinho e morava um andar acima do meu, resolvi chamá-lo de meu céu. À partir daí  passei a viver com a cabeça nas nuvens, literalmente no andar superior. Flutuando.

O tempo foi passando e fomos nos descobrindo. Éramos sim o inverso um do outro. Ele gosta de sal, eu de doce. Ele é mais tímido, eu extrovertida. Ele adora números, eu palavras. O tempo foi passando e lá se vai mais de 30 anos.

Quando casamos, a escolha da cama já indicava nossas diferenças, eu queria uma cama de ferro e ele, de  madeira. Tiveram que desenhar uma cama especial confeccionada em madeira com acabamentos em ferro. Ninho este que nos acolhe há 26 anos.

Certa vez nossa decoradora marcou uma reunião para falarmos sobre a reforma do nosso banheiro, como ele chegou antes foi interrogado primeiro e acreditem, todas as respostas dele foram diferentes das minhas. Parece que eu fiz questão de colocar- NDA( nenhuma das respostas anteriores) em tudo! A princípio fiquei com vergonha, era como se nos conhecêssemos muito pouco, ou quase nada. Fiquei imaginado a cena da gente participado daqueles programas de auditório em que o apresentador faz perguntas pros casais separadamente, ia ser um fiasco…

Recentemente passando férias com uns amigos eles nos davam gongo o tempo todo a cada vez que destoávamos. Ele dizia que gostava de lima e eu achava que era de melancia. Eu falava A e ele falava B.

Relembrando todas essas cenas fiquei questionando o que andaria acontecendo conosco. Será que estaríamos desafinando? Por onde andaria nosso amor?

Fui criada prá ser certinha e poucas vezes na minha vida transgredi, mas há uns anos atrás num átimo de suprema transgressão fiz  bronzeamento. Artificial, diga-se de passagem. Ao chegar em casa, morenaça, crente que estava abafando, fui recebida com uma cara de espanto e com a seguinte frase de desaponto _ “ Eu não esperava isso de você”? Minha pequena transgressão já ia ficando grandinha quando eu também me surpreendi respondendo – Muito menos eu! Realmente era uma atitude que não era minha. Mas era nova! E o novo sempre assusta.

Outra vez chegando em casa de uma pequena viagem, a casa vazia, um calor imenso, abri a geladeira, peguei uma cerveja dessas pequenas e eu que não bebo, sorvi-a com prazer. Depois fiquei olhando praquela garrafa, quase me censurando, juro que pensei até em esconder o franco vazio, afinal era a prova do crime. Contra quem eu não sei. Mas por essa eu também não esperava, afinal eu detesto cerveja. Acho que andei copiando atitudes masculinas.

Lendo as páginas amarelas de uma revista semanal descobri aliviada e com alegria que na verdade esse negócio de cara metade não existe e que o molho do relacionamento está exatamente nas diferenças, na mudança, é ela que nos move. Afinal somos humanos, seres inacabados, eternamente em construção e cheios de imperfeições.

Ele não é desses que manda flores em datas previstas. No início era estranho, pois eu criava expectativas e me frustrava, com o tempo fui percebendo que era o jeito dele amar e que não adiantava esperar que ele me desse parabéns no dia internacional da mulher… Em contrapartida já fez coisas lindas, como um cartaz que guardo no cofre, uma jóia. A cena era de uma mulher  com os pesinhos dentro de uma bacia de água quente, fumegando. Era eu chegando cansada de uma das inúmeras viagens… Fui aprendendo que esperar pelas atitudes inesperadas é que era que o mais gostoso.

Mas gostoso mesmo foi uma deliciosa surpresa….Num dia qualquer, sabendo da minha paixão por bombons de cereja, comprou na Kopenhagen uma caixa linda, em forma de coração e a colocou bem no fundo da minha gaveta de calçinhas. Passou um dia, dois, treis e nada deu agradecer. Daí ele não resistiu e me perguntou – Amor, você troca de calçinha todos os dias? No que eu respondi  prontamente– Claro que sim! É que tenho mania de usar sempre as mesmas que gosto mais e elas ficam ali á primeira mão, abria então a gaveta só um pouquinho sem saber que lá no fundo estava depositada minha dignidade de trocar calçinhas todos os dias e batendo forte, muito forte, docemente, o meu coração!

SOPA CREMOSA DE BATATAS E PARMA

 

INGREDIENTES                                               6 PESSOAS
600 gr de batatas descascadas e picadas em cubos
1 ½ litros de caldo de galinha
100 gr de queijo gruyere ralado
½ xícara de presunto de Parma picado bem pequeno- retalhos na Royal
½ colher de manteiga
2 alho-porrós picados
1 xícara de rúcula picada
Sal,
Pimenta do reino

PREPARO

Derreter a manteiga numa panela de boca larga e refogar os alho-porrós sem dourar.
Junte as batatas picadas e o caldo de galinha.
Cozinhe lentamente ate que as batatas estejam macias.
Bata no liquidificador e volte para a panela.
Acrescente o queijo e misture ate dissolver.
Tempere com sal e pimenta.
Na hora de servir, misture a rúcula e o Parma.
Se necessário, junte mais caldo.
Sirva com torradas.

“Não tinha parma em casa e coloquei linguiça calabresa em fatias finas junto com a batata pra cozinhar. A rúcula só é colocada na hora de servir e o contraste dela chocante e fresquinha com a sopa quente é muito bom! Pra acompanhar, fiz uma torrada que já é famosa aqui em casa, pois faço-a sempre pra acompanhar saladas especiais e sopas.

Receita da torrada:
Contar fatias de pão de forma ao meio e reservar.
Fazer uma pasta misturando manteiga com sal e ervas frescas de sua preferência,  usei alecrim, orégano  e  tomilho. Manjericão não pois ele rouba a cena. Misture tudo e passe na fatia de pão como se fosse um patê. Deixar pra asar um pouco antes da hora de
servir pra ela ir à mesa quentinha.” Mary Figueiredo Arantes

Cadeiras na Varanda

Lembra quando relacionar era ter cadeiras na varanda? Estar ali sentado era uma forma de dizer: podem se achegar. Às vezes era apenas dizer para quem passava um “Boa”, omitindo o noite, outras era “Vamo chegar compadre!”. Depois, só Deus sabe a quantas ia a conversa, que normalmente versava sobre Romãozinho,  Lobisomem e outros casos assustadores. Primeiro chegava seu Zé Maria, Dona Delcídia costumava aparecer só depois de arear as vasilhas e deixar a cozinha limpinha da janta. Mais que um bom café coado na hora, não precisava, seria considerado agrado. Alguns dias tinha cana, meu pai a cortava em roletes miudinhos que dava gosto de ver. A meninada comia de escorrer caldo boca afora. Outras vezes era baciada de laranjas, das boas, colhidas de véspera no pé. Chego até a lembrar do corte da tampa que meu pai fazia, ele o chamava de boquinha de vovô. Terminava com um vêzinho fundo e pequeno, o caldo que brotava dali ia direto goela abaixo, e naquele tempo ninguém tinha azia e essas aflições que o povo sente agora. Lembro até que má digestão era “indigestã” e menino agitado demais, impaciente, era “desinsofrido”…

Não era sempre que a criançada podia participar das prosas, participar é modo de dizer, que menino e nada naquela época era a mesma coisa. Quando a conversa apertava, bastava um rabo de olho pra gente “tomar bença” e ir caçar o rumo. Noutras noites, enquanto eles traçavam café com biscoito de pêta, brincávamos de roda, iluminados pela lua.  Luz era coisa rara e nem sempre tinha gerador para mantê-la, mas lua era quase sempre garantido. Da casca da laranja fazíamos brincadeiras que até hoje lembro. Era pegar a ponta de uma casca inteira e rodá-la ao mesmo tempo em que recitávamos todo o alfabeto, a letra do amado era aquela na qual a casca arrebentasse.

Os tempos modernos chegaram, brincadeiras de roda, luz da lua e visitas de compadres ficaram pra trás, e ai de quem só tiver café para servir quando chega uma visita. Receber sem nada para servir é quase ofensa hoje, e laranja e rolete de cana não valem mais. Se não passarmos numa padaria e nela abastecer a mesa de qualidades de pães e queijos, os quais muitas vezes nem os nomes sabemos pronunciar direito, não ficamos satisfeitos, nem nós nem as visitas. Mudamos nós ou as visitas?! Infelizmente mudamos todos! Nem na casa de filhos está usando chegar sem avisar, principalmente se for “filho homem”. Tem que ter a permissão da nora, marcar hora, e ai sabe o que a gente faz? Não sai mais, parece que sair passou a ser chato, significa dar trabalho para alguém e fica (cá pra nós), algumas vezes, até caro receber. Virou uma complicação só. Perdeu a espontaneidade. Nem café coado na hora, nem chaleira, muito menos coador, e quem não tiver as tais máquinas de expresso fica sem café, porque também não tem mais mulher que côa café na hora, danou tudo.

Sempre procurei ter na minha vida amigos diversos: os da empresa, da culinária, do salão de beleza, da literatura, coisa que levo como uma religião. Alguns são tão diversos que tem épocas que somem e lá vai eu ligar para ver onde a pessoa anda, antes que eu esqueça a fisionomia dela, e ela a minha. Estes fazem parte da categoria amado-arisco, aqueles que você não consegue nunca estar com ele, que não dá pega, mas que mesmo assim insistimos em amá-los. Tem os que um dia vão te convidar para ir à casa deles, mas este dia nunca chega, e tem os que te convidam todo dia. Rezo até para que estes não enjoem de mim. Isto aqui em BH, que é cidade metida a grande, mas que ainda conserva todo o jeito de interior que amamos. Em São Paulo, por exemplo, quase nunca se é convidado para ir na casa de um amigo, e isto não significa que não o seja.

Pessoas na minha vida e em minha profissão, e tenho certeza que está é a opinião de muitos, são o maior bem que temos. Os amigos não sabem do poder de ajudar uns aos outros que eles têm.  Tenho certeza também que não teria chegado onde cheguei (onde cheguei?) se não fossem clientes, amigos, clientes que se tornaram amigos, família e cada pessoa que passou em minha vida, a tal rede de relacionamentos tão conhecida hoje como network. Mas cada vez mais percebo o  distanciamento das pessoas, grupos de amigos que se esfacelam ao primeiro sopro. A dificuldade de aceitar o outro em sua diversidade é cada vez mais difícil. Na verdade, o que percebo são mudanças brutais nas relações interpessoais. Como estamos constantemente atrasados, a pressa e a falta de tempo nos levam a viver o que não planejamos, uma vida quase sem vida, onde o trabalho ocupa grande parte. Relacionar ficou difícil. Leila Ferreira, em uma de suas crônicas, fala de uma experiência em que uma família ficou sem acessar a internet nem ligar a TV por um tempo, e conta do estranhamento inicial das pessoas. Ficavam sem assunto, um silêncio abissal se formou, pois falar era difícil, não sabiam mais conviver e conversar. O que foi superado logo depois. É sabido que a tecnologia nos aproxima de quem está longe e afasta-nos de quem está perto.

Não fazem muitos anos em que fui a um aniversário e eis que entra na festa uma amiga que eu nunca imaginava fosse amiga da aniversariante, mas que na verdade não a conhecia, só pela internet, em trocas de emails. Foi muito divertido elas se conhecendo, a situação era nova. Meu filho é amigo de várias amigas minhas, que ele conhece apenas do Facebook.  Marga é vizinha da Mary Reis… de FarmVille, e Magui me disse que recebeu um email outro dia com um pedido de uma cliente que ela respondeu prontamente. Mais tarde a cliente resolveu fazer uma alteração no pedido, aumentando-o e nada de resposta. A opção era ligar, o telefone esgoelava e nada de ninguém atender, depois de muito tempo é que Magui escutou o telefone tocar e veio correndo. A cliente, já bufando de raiva, disse com a voz bem firme: “Ô, você não está online não?!” No que minha amiga, naquela simplicidade que só os que a conhecem sabem ser dela, respondeu: “Não, eu tava era na horta!”

Quando meu pai morreu, a comunidade do conjunto onde ele morava compareceu ao velório em peso, foi comovente. De penca de banana a biscoito frito, tinha de tudo. Acredito que foi a última vez que vi uma comunidade de verdade, coisa rara hoje em dia. Agora temos que nos contentar com as virtuais. Não mais fazemos amigos, desses antigos e verdadeiros, apenas “adicionamos”…

Dé me diz que email é a fumaçinha dos tempos modernos, a forma de dizer que (ainda) estamos vivos. Ai de nós se não fosse essa tela, na qual escrevo essas mal traçadas linhas. Preenchemos nosso pouco tempo neste vazio azul, mandamos emails para o marido no quarto, para o notebook do filho que está na aula, para a amiga do outro lado do mundo… Temos uma rede de relacionamentos virtuais imensa, o mundo aos nossos olhos, mas o coração carece de varandas.